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O valor sintrópico do capim - adeus herbicida

Na primeira parte desse artigo, falamos um pouco sobre uma outra maneira de olhar para o capim e contamos o caso do capim gilete na Amazônia. Dessa vez queremos compartilhar com vocês outros três casos reais em Agricultura Sintrópica que tivemos o privilégio de acompanhar.
Sistema com capim entre as linhas de eucalipto, banana, cítricos e manga Ernst implementou na Fazenda da Toca, em 2015.

Apesar de ter encontrado uma barreira cultural na primeira tentativa de usar o capim, a ideia de incluir esse elemento savânico nas dinâmicas de um plantio sintrópico continuava presente nos desenhos de Ernst Götsch e pode ser testada em outros trabalhos de consultoria que ele realizou em uma fazenda no Mato Grosso e na Fazenda da Toca em São Paulo. Neste último caso, o Ernst conseguiu iniciar e acompanhar de perto vários modelos. A espécie eleita foi o colonião Panicum maximum, com a variedade conhecida como mombaça. Escolhido por sua grande produtividade, por tolerar um pouco de sombra e por seu crescimento cespitoso - ou seja, em touceiras - ele seria a primeira grande “fábrica de adubo do sistema”.

O mombaça foi plantado em faixas entre as linhas das árvores. A largura dessa faixa pode variar, mas normalmente é de 5 metros, largo o bastante para mecanizar o corte. O procedimento é fácil de entender. Após cortado, o mombaça é enleirado (acumulado) na linha de árvore adjacente, metade da faixa para cada lado. Dessa forma, sempre há uma boa camada de matéria orgânica sobre as linhas. Isso traz muitas vantagens. O monte formado pelo capim impede o crescimento de ervas indesejadas e assim exclui o uso de herbicidas. Além disso, na medida em que seca, ganha uma tonalidade mais clara, que reflete a luz do sol e mantém, portanto, o solo mais fresco, úmido e cheio de vida. Por baixo dessa camada, as árvores lançam suas raízes e participam da decomposição da palha, junto com bactérias, fungos e outros microrganismos capazes de "beber" água da atmosfera. Neste caso o sistema se mostrou vantajoso, especialmente durante o ano de 2015 quando a região enfrentou a famosa “crise hídrica”. O consórcio que incluía eucalipto e banana - dois famosos "secadores" de solo - provou o que o Ernst sempre defendeu: nenhuma planta seca o solo. O que seca o solo é o monocultivo (falta de estratificação), o herbicida, a mecanização pesada (que compacta tudo) e o solo descoberto.

O capim cortado e organizado em uma leira dupla côncava no centro elimina a necessidade de herbicidas ou controle de mato nas linhas das árvores (Fazenda São Sebastião, RJ)

Existem, no entanto, os gargalos tecnológicos. Não há no mercado uma máquina que faça o corte e organize o capim em apenas uma operação e que, ainda por cima, seja leve o suficiente para não compactar o solo nem amassar as touceiras. As roçadeiras comuns não fazem um corte limpo, sem o qual não há uma boa rebrota. Elas normalmente fazem o contrário, estilhaçam a planta. As que se saem melhor são as ceifadeiras. Estas fazem um corte limpo, mas não resolvem a operação do enleiramento. Ernst sonha em desenvolver uma máquina com duas barras de corte. Um na acima do outro. O primeiro cortaria o capim e o enleiraria na lateral por meio de uma cinta ou esteira. O segundo, uns 10 ou 15 cm abaixo, serviria para fornecer biomassa para o próprio capim. Enquanto o mercado não disponibiliza a máquina perfeita, alguns fazendeiros inovadores têm feito testes importantes que apontam a tecnologia para uma nova direção.

Quase todos os implementos disponíveis para cortar mato fazem esse tipo de corte, que compromete a rebrota da planta.
Um corte limpo permitiu que esse tipo de Panicum crescesse 20 cm em apenas um dia, contra os 5 cm do método acima.
Cultivo de banana em larga scala - Martinica
Área experimental com capim entre as linhas de árvores + banana (foto: Patrick Aubery)

 O cultivo industrial de banana sofre hoje com desafios instransponíveis. Seja por novas doenças, esgotamento e erosão dos solos ou falta de mão de obra, fazendeiros dos maiores centros produtores de banana vislumbram um futuro sombrio. Saiba mais sobre o "apocalipse da banana" aqui, aqui, aqui e aqui.

Em uma fazenda de 400 hectares na Martinica - pequena ilha francesa nos trópicos, de onde sai parte da produção de banana que alimenta o mercado europeu - um empreendimento de família conduziu o cultivo de banana para outro rumo. Há mais de uma década, a fazenda sofria perdas de solo por erosão depois de tantos ciclos de cultivo convencional de cana-de-açúcar (a ilha é famosa pelo rum) e banana. O solo estava desestruturado e era anualmente lavado morro abaixo pelas fortes chuvas que fustigam o Caribe nas temporadas de furacões. Como medida preventiva, Bertrand, o pai, inovou ao plantar por anos o capim Brachiaria para conter a perda de solo. A ação foi um sucesso. A presença da espécie perene não apenas segurou a terra como também melhorou o solo de forma geral, o que fez com que diminuíssem o uso de insumos e defensivos. Em 2016, Patrick, o filho, convidou o Ernst para uma consultoria, e desde então estivemos lá duas vezes para ver o desenvolvimento desse sistema inovador.

O Ernst sugeriu que o capim mombassa fosse plantado em ruas entre as linhas de bananas, a cada 5 metros, que também seriam enriquecidas com outras espécies. Com pouco mais de um ano, a dinâmica do plantio funcionou muito bem, embora com muitos gargalos tecnológicos. A Martinica foi castigada pelo furacão Irma em 2017, que levou embora boa parte dos plantios. Uma nova área foi feita, agora com algumas melhorias, e que incluía eucalipto e novas árvores. O fato de a Martinica pertencer à Comunidade Europeia também facilitou o acesso à uma oferta maior de máquinas. Aqui reconhecemos e agradecemos o espírito inovador dos agricultores Bertrand, Patrick e Romain (o gerente). Desde que se convenceram da proposta, estão incansavelmente fazendo testes e investimentos em novas soluções para o corte e enleiramento do capim. Eles já estão na terceira máquina, e a experiência que eles estão vivenciando contribui enormemente para o nosso entendimento dos desafios e possibilidades desse modelo. Somos muito gratos por sempre compartilharem as informações conosco e pela determinação típica dos pioneiros.  

Acima, o primeiro implemento que usaram. Embora seja uma solução interessante, o implemento requer um trator muito pesado, que danifica a rebrota da planta.

O "brinquedo chinês" é uma solução leve, mas não consegue cortar touceiras mais velhas e fibrosas.

A solução atual (acima) faz um balanço entre as duas primeiras. Enquanto não temos um máquina desenhada especificamente para isso, fazendeiros fazem o melhor que podem com o que há disponível no mercado.

Consorciar bananas com árvores e espécies perenes como o capim faz todo sentido, sobretudo em áreas que ficam no caminho de furacões (que serão cada vez maiores com as mudanças climáticas). Não é novidade nem difícil concluir que quanto mais fofo é o solo, mais profundamente as raízes das plantas conseguem descer. Isso faz com que elas fiquem literalmente amarradas ao chão. Também é bem simples de entender que espécies perenes que não são arrancadas anualmente vivem o suficiente para que suas raízes viajem mais longe e mais fundo. No caso do capim, ele é especialmente interessante. Seu sistema radicular vigoroso abre caminho para que as raízes das outras plantas possam descer. Além disso, elas fazem associações com bactérias de vida livre que fixam mais nitrogênio que muitas leguminosas. Com o constante aporte de matéria orgânica oriunda do corte do capim e da poda das árvores, a tendência natural desse sistema é ter um aumento constante de fertilidade e complexidade do solo. Isso também tem relação com os furacões. Solos mais férteis, fofos e profundos vão necessitar cada vez menos adubos. Com menos adubos, as raízes das plantas se sentem estimuladas a descer, e assim se tornam mais resistentes aos ventos.

Capim na horta
Ter capim crescendo com hortaliças diminui a necessidade de irrigação e favorece o enraizamento das plantas.

Mais recentemente, Ernst trouxe o uso do capim também para a produção de hortaliças. Sua decisão de plantar o mombaça nos canteiros de horta, segundo ele, aumentaria a fotossíntese total da área e evitaria o crescimento de ervas espontâneas indesejadas. O capim preencheria todos os espaços não ocupados pelas hortaliças, e sua transpiração criaria um microclima mais úmido na superfície do canteiro, o que reduziria a necessidade de irrigação. Assim como nos exemplos acima, o manejo é feito pelo corte limpo e incorporação das folhas na superfície dos canteiros. Sem espaço para crescerem, as ervas indesejadas teriam poucas chances de prosperar. Outra vantagem que observamos aqui em Casimiro de Abreu (onde o Ernst realizou os primeiros testes desse modelo), é que o capim estimula o enraizamento das hortaliças. Fizemos o teste, a diferença é impressionante. E não para por aí. 

Vista aérea de uma faixa de hortaliças com capim. Depois da colheita, o agricultor herda um campo de produção de biomassa (Fazenda São Sebastião, RJ, 2017)

Além de tudo isso, existe um benefício de entendimento mais sutil. Arrancar mato (um dos grandes gargalos da olericultura orgânica) não só é caro, como segue uma lógica entrópica, que segura a sucessão natural. A capina manual, embora menos agressiva que a química, está longe de ser inocente. Tirar o “mato” pela raíz promove pequenas feridas no solo e expõe sua camada mais fértil e sensível ao sol. Parte da microvida do solo que começava a se acumular na rizosfera morrem instantaneamente, O uso do capim, embora também trabalhoso, é sintrópico. Ao invés de capina, faz-se poda, que alimenta e protege a solo. Quando terminado o ciclo da horta, o canteiro passa a cumprir outro propósito. Ao invés de uma faixa de solo nu, cansado e revirado, o agricultor herda uma usina de adubo pronta para fornecer alimento e proteção às linhas das árvores ao redor.

As linhas de árvores adjacentes foram pulsadas para que pudéssemos enriquecer o sistema (Fazenda São Sebastião, RJ, 2017)

Vale a pena, também, lembrar que grande parte das áreas que são hoje dominadas por gramíneas foram, um dia, complexas florestas que nós simplificamos. Nos quase 80% do planeta que desmatamos nos últimos 10.000 anos, perdemos concentração de matéria e energia, perdemos diferenciação e perdemos complexidade. Se considerarmos o deserto e a floresta como extremos, nossa agricultura sempre operou no contrafluxo do planeta, em processos degradativos que se iniciam na floresta e terminam no deserto. As evoluções tecnológicas mais recentes permitiram um aumento inédito na produtividade, mas ainda não inverteram nossa trajetória no sentido da entropia. A cada ano, safra após safra, os solos do planeta empobrecem ou são erodidos. Mesmo com as super-colheitas, ainda estamos dando um passo para trás – da floresta ao deserto. Não fossem os aportes externos (de fontes não renováveis), poucos solos no mundo ainda produziriam alimentos o suficiente para sustentar animais de porte grande. 

Uma fábrica de fertilizante vivo que protege o solo e nutre as plantas (Fazenda São Sebastião, 2017)

O planeta visivelmente funciona de forma diferente – do deserto para a floresta. Sem nossa presença, mesmo a terra mais degradada voltará a ser fértil um dia, passando pelo lento processo da sucessão natural. A sintropia aplicada aos cultivos agrícolas propõe uma nova forma de interpretar a agricultura, que favorece e impulsiona os processos de vida, sincronizando a produção agrícola com o fluxo inevitável do planeta. Por essa razão, nós imploramos aos movimentos de agricultura orgânica que fomentem a adoção de espécies perenes e sucessão natural como diretrizes principais se quisermos genuinamente ser regenerativos e sustentáveis. Ambientalmente, não podemos mais custear dietas baseadas em cultivos anuais e bianuais. Isso não significa que devemos abandonar o cultivo de alface ou feijão. O que precisamos é entender que essas espécies pertencem a um estágio inicial de um longo ciclo florestal, e que emergem após a criação de uma clareira. Deveríamos ser proibidos de cultivar apenas espécies de ciclo curto. Tal como um organismo saudável, uma floresta precisa de todas as suas "células" para completar seu ciclo, das ervas de ciclo curto às árvores centenárias (que por sinal, produzem parte dos alimentos mais nobres que conhecemos).

Quando o capim fica muito sombreado, se torna mais fraco e "se despede" graciosamente, sem necessidade de guerra. "Nós deveríamos ser gratos por sua contribuição e continuar o serviço que eles começaram, sempre melhorando o lugar". (E. Götsch)

O capim é apenas um dos exemplos de como essa perspectiva se manifesta na prática. Não é ele que empobrece o solo. Afirmar isso é errado, injusto e sustenta nossa guerra contra a vida. Muito pelo contrário. Ele nos dá uma chance de redenção. Bem manejado, é o capital natural que temos disponível para levar o plantio adiante, acelerando a sucessão natural em direção à sistemas mais complexos – estratégia natural do planeta (que cria fertilidade sem adubos externos). A agricultura moderna desperdiça o potencial dessa e de muitas outras espécies. O manejo inteligente dessas plantas depende de uma mudança de ponto de vista e tecnologia. Xingar não resolve, combater piora. A ocorrência dele é uma consequência, e não uma causa. É por tudo isso que na agricultura sintrópica o uso de herbicidas nunca precisou ser uma proibição ou um incentivo. Nós desenhamos nosso sistema de forma a não ter que lidar com essa opção. Herbicidas são dispensáveis simplesmente porque não fazem sentido. É uma ilusão achar que conseguiremos controlar o uso de agrotóxicos com regulações e proibições. O que precisamos é superar nossa necessidade de usá-los. Como o Ernst diz, “eu planto meu mato, e eu manejo meu mato”.

Felipe Pasini

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