Agenda Gotsch

A dignidade de cavar buracos. Como os valores sociais afetam a motivação do agricultor.

As vantagens de métodos agrícolas mais sustentáveis já foram amplamente estudadas. Se formos falar apenas dos sistemas agroflorestais – dentre os quais está a agricultura sintrópica - podemos elencar inúmeras pesquisas em diferentes ecossistemas que atestam os benefícios que essas práticas oferecem, seja para o agricultor (segurança alimentar, resiliência do plantio, aumento de produtividade, diversificação da renda, etc) seja para o meio ambiente (sequestro de carbono, proteção da água, recuperação do solo, aumento da biodiversidade, etc).

Com tantos exemplos de casos de sucesso e reiteradas comprovações científicas, era de se esperar que o número de pessoas que adotam tais práticas também registrasse um crescimento equivalente. Mas isso não acontece. Ao menos não na velocidade que gostaríamos. O porquê de isso não acontecer é o que buscam responder os estudos sobre adotabilidade na agricultura. A resposta ainda não é unânime, porém, cada vez mais se fortalece a suspeita científica de que aspectos culturais, mais do que técnicos, impõem limitações à adoção de novas práticas agrícolas (5)(6).

Um caso que vivi recentemente pode ajudar a ilustrar essa hipótese. Eu estava com o Felipe em uma das escolas em que implantamos hortas sintrópicas, quando um senhor, por volta de seus 70 anos, se aproximou para puxar conversa, como já havia feito alguns outras vezes. A conversa era sempre sobre amenidades e simpatias. A diferença é que, dessa vez, nós estávamos cavando os ninhos para o plantio de mudas de árvores, então o trabalho era um pouco mais pesado e as pedras do terreno contribuíam para que, aos olhos de nosso interlocutor, aquilo fosse lido como uma cena de sofrimento. Ele chegou mesmo a me dizer que se fosse um filho dele a fazer aquele serviço ele lhe perguntaria “para quê gastei tanto com seus estudos?”. 

Eu poderia ter-lhe dado a resposta imediata e básica de que “nessa agricultura é preciso estudar muito para saber cavar um buraco direito”, mas eu me compadeci com a angústia daquele senhor que começava a ser nosso amigo e que talvez, estivesse querendo ser nosso cúmplice. Talvez ele esperasse que nós compartilhássemos alguma reclamação sobre os nossos empregadores, ou uma lamúria pelos salários baixos, ou a maldição da nossa lide... o inimigo comum... aquela clássica e primária (e nefasta) ligação que se estabelece entre duas pessoas. O resultado é que não falei nada. Continuei a cavar por ter convicção de que o que eu estava fazendo era o certo. Não por um salário, tampouco por status social, mas porque era o certo.

Na verdade, relacionei a reação daquele senhor com outros casos derivados da nossa experiência de ensinar agricultura sintrópica. A relação parece distante, mas não é. Acompanhe comigo.

Sempre refletimos, juntos com os muitos parceiros que ministram cursos, vivências e estágios, sobre as dificuldades da capacitação nessa área. Muitas das pessoas que procuram aprender agricultura sintrópica dão muito mais voltas do que aquele nosso recente amigo da horta. Elas geralmente são aquelas pessoas que fazem muitas reflexões sobre o que querem fazer de suas vidas e estão em busca de um propósito. São também geralmente aquelas que não se iludem com o pacote de sucesso imposto por nossa sociedade, pois o percebem como uma escravidão pré-programada. São enfim, de um modo geral, aquelas que criticam e questionam o status quo e o sistema dominante. Mas... mesmo essas pessoas, entra dia e sai dia.... em algum momento elas também se ressentem de cavar buracos. E isso quer dizer mais sobre nossa sociedade do que inicialmente podemos imaginar.

Sugiro aqui três interpretações para o fato: uma fundamentada em uma dimensão mais econômica, outra mais social e, por fim, uma última interpretação (pasmem) literária.

Na primeira interpretação poderíamos enveredar pelas discussões sobre o trabalho alienado que explicaria, por exemplo, o porquê o buraco fica mais difícil de se cavar quando não há o entendimento do propósito total daquela ação. Ou poderíamos falar sobre os dilemas da propriedade privada, pois o incômodo de cavar buracos aumenta quando você não cava para seu único e exclusivo benefício/lucro. Há quem fale sobre isso de forma muito melhor do que eu poderia aqui sumarizar. Um exemplo em inglês aqui e em português aqui.

Na segunda interpretação poderíamos ressaltar os símbolos compartilhados socialmente de sucesso e fracasso. Dependemos do olhar do outro para construir nossa identidade. Então, por mais antissistema que você seja, fica difícil defender o orgulho de cavar buracos.

A última interpretação chamei de “literária” porque foi inspirada por um estudo da literatura clássica de Hesíodo e de Virgílio, feito por Stephanie Nelson (7).

A partir de uma inovadora análise dos poemas de Hesíodo e de Virgílio, a autora Stephanie Nelson sugere que o lugar do ser humano na natureza e sua relação com o divino condicionam a visão de agricultura de uma sociedade.

Por mais inesperado que isso possa parecer, foi ali que encontrei profundas reflexões sobre a relação entre o fazer agrícola e a visão de mundo compartilhada por um grupo em uma determinada época. Isso tem mais a ver com uma orientação ética e com valores morais ali descritos do que com aspectos técnicos da agricultura. Stephanie Nelson defende a ideia de que a maneira como fazemos agricultura mantém íntima relação com nosso entendimento sobre se vivemos em harmonia ou alienados dos mundos físico, moral e espiritual que está ao nosso redor. Tanto Virgílio quanto Hesíodo, cada um a sua maneira, demonstraram como o universo da agricultura é um microcosmos e um reflexo do papel do homem no mundo.

Isso é ratificado na história do surgimento da própria agricultura, cujos achados arqueológicos cada vez mais sugerem que fatores cognitivos, mudanças socioculturais e simbólicas coexistem com as tradicionais interpretações baseadas no aumento populacional e na escassez de recursos para explicar a transição, na chamada Revolução Neolítica, para uma economia produtiva baseada na agricultura (2)(3). Um novo sistema estrutural de imagens mentais compartilhado coletivamente passa a representar a relação da sociedade humana com o ambiente no qual ela se encontra. Além disso, observa-se também junto com o surgimento da agricultura uma ocorrência repentina de padrões de práticas religiosas cada vez mais transcendentais. Ou seja, objetos, animais e fenômenos naturais deixaram de ser reverenciados e foram substituídos por divindades etéreas. É como se, a partir da agricultura, nós tivéssemos passado a viver uma separação e uma desconfiança da natureza e isso teria nos levado a imaginar cultos ancestrais e deuses do céu (4).

Neste livro, o arqueólogo francês Jacques Cauvin propõe um alternativa para a interpretação do surgimento da agricultura. A ênfase se desloca dos motivos ambientais para os motivos culturais.

O que isso tem a ver com cavar buracos? Tudo. O discernimento sobre o que é bom, o que é certo e até mesmo o que é belo na agricultura implica um particular entendimento da natureza, do cosmos e da nossa relação, como seres humanos, com o mundo físico e com os outros seres. Enquanto a noção de agricultura estiver separada da noção de natureza, ao ser humano só restam as opções de expectador ou de explorador. Nas duas condições, o ato de cavar buracos só vai fazer sentido se eu enxergar um benefício próprio, a curto prazo e, de preferência, exclusivo.

Uma transformação da atitude ética individual e social, baseada em valores morais relacionados com uma justiça intergeracional (direito das futuras gerações de terem acesso aos mesmos recursos naturais que hoje disfrutamos) é a nova dimensão da sustentabilidade defendida pelo pesquisador Scarano (8), e da qual depende a própria sustentação da humanidade na Terra. 

Em última instância, podemos dizer que para que haja uma onda de adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis, temos que ser capazes de mudar os nossos “quereres”. Precisamos encontrar na interação benéfica com o meio nossa razão, nossa motivação e nossa recompensa. É preciso ver um solo descoberto, uma árvore precisando de poda ou uma semente indo para o lixo e sentir a mesma aflição de se ver uma criança passando fome, outra sem conseguir respirar direito e outra desperdiçando o seu futuro. É preciso ter o mesmo ímpeto incontrolável e a mesma satisfação de poder contribuir para a diminuição do sofrimento do outro. Seja com um prato de comida, seja cuidando de um jardim, seja respeitando e dando valor à continuidade da vida. É uma escolha de conduta que não pode ser imposta, é preciso ser sentida.

Na foto vemos Ernst Götsch cavando canais de drenagem em uma área alagada e degradada na Fazenda São Sebastião. A visão da futura prosperidade do lugar é sua motivação. O resultado pode ser visto aqui (português) e aqui (inglês). A convivência com Ernst e seu exemplo de conduta foram o estímulo inicial e fundamental das reflexões deste texto.

REFERÊNCIAS

(1) ABRAMOVAY, R. “Paradigmas do Capitalismo Agrário em Questão”. In: Seminário Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural. Anais: Brasília, 1997.

(2) BOWLES, S.; CHOI, J. K. “Coevolution of Farming and Private Property During the Early Holocene”. Proceedings of the National Academy of Sciences, 2013.

(3) CAUVIN, J. “The Birth of the Gods and the Origins of Agriculture”. Cambridge University Press: Cambridge, 2000.

(4) ISETT, C.; MILLER, S. “The Social History of Agriculture: from the origins to the current crisis”. Rowman & Littlefield Publishers: Maryland, 2016.

(5) MEIJER, S. S, et. al. “The Role of Knowledge, Attitudes and Perceptions in the Uptake of Agricultural and Agroforestry Innovations Among Smallholder Farmers in sub-Saharan Africa”. International Journal of Agricultural Sustainability, 2005.

(6) MERCER, D. “Adoption of Agroforestry Innovations in the Tropics: a review. Agroforestry systems, 2004.

(7) NELSON, S. A. “God and the Land – The Metaphysics of Farming in Hesiod and Vergil”. Oxford University Press: New York, 1998.

(8) SCARANO, F. R. “The Emergence of Sustainability” In: Wegener, L.; Lüttge, U. (eds.). Emergence and Modularity in Life Sciences. Springer-Nature, Cham, 2019.

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Dayana Andrade

5 comentários

  • It is really beautiful how well you put that into didactic words. Indeed, it is deeper than the cultural influence although I never realized it. Yet also, to save ourselves or mankind, the only way should be by completing that mind shift as a civilization – to stop being autistic in Ernst words. Thank you Dayana and Felipe, this is way beyond agriculture. Despite the distance from our reality as a society, and personally speaking my routine, this is a part of the light in the end of the tunnel that can guide us back to be cherished beings. That you guys have a prosperous one and keep inspiring us!

    • Hi Ricardo, thanks very much for your feedback. Coincidentally, Felipe and I were discussing this morning whether this kind of content had the same impact as technical videos or texts. Your comment made us very happy to see that you also understand the importance of that approach. As Ernst says, philosophy should be mandatory in agronomy. We strongly believe we need to change farming’s cosmology, and although shifting to more sustainable designs works fine, it sometimes affects only the surface of our skin. It doesn’t change our structure. Thanks again for the reassuring words.

  • When I was a kid growing up in South Africa – it wasn’t uncommon for many kids to mock the other (poorer looking) kids as looking like farmers. Definitely a (and not just in the west) universally cultural negative viewpoint of people that toil in the fields. In Asia, its frowned upon to have a darker complexion) as it resembles those (poor) who work in the field.

    Those who grow our food should be praised not belittled. How is it that a lawyer, banker or someone in I.T is regarded as having better credentials than a farmer?

    I recently asked the owner of one of my favourite Portuguese restaurants what Portugal has so many amazing vegetables growing everywhere but in almost all the restaurants its meat, chips, potatoes and if you’re lucky a tiny tomato, onion and lettuce salad. She said its because by eating meat it shows that one is not poor anymore (so the vegetables get inadvertently left out) and we massage our egos with whether we look poor or not and the outcome is degraded land and a degraded mind, body and spirit.

    Indeed this is way beyond agriculture as we once again need to connect with the earth (something thats extremely alien to many. The vibration we create with a hoe or pick is that connection and more importantly the intention through our connection as we work the earth and can not be replicated by machines or with mal intentions i.e. farming purely for profit.

    The Celts of Europe were all nomadic (to a degree) farmers that worked with nature which included ethereal and spiritual practices that are laughed upon today. The Romans took that away and introduced basically what we have today. The majority of Japan were farmers until WW2.
    Where am I going with that?
    Ernst loves to tell the story of how mankind removed themselves from universal laws and created their own laws (thereby being kicked out the garden of Eden) Man has spent the last 25000 years or so discovering himself through his free will and slowly is reconnecting to the source.

    I believe it is a state of ones level of consciousness that will allow them to connect to a syntropic way of living and farming and that unfortunately is not the same for every person. However the good news – its already started.

    • Hi Sebastian, sorry for the late reply. Wise words and we agree 100%. Thanks for enriching this post and the discussion 🙂

  • Dayana, você comentou que nós precisamos mudar a “cosmologia da agricultura”, e eu vejo que o trabalho realizado pela Life in Syntropy já é essa grande e necessária mudança em curso. Eu estava lendo o pequeno artigo “Gaia 2.0”, o qual pergunta se os humanos podem adicionar algum grau de autoconsciência à autorregulação da Terra, e em vários momentos o relacionei com aspectos da agricultura sintrópica.
    Fica cada vez mais claro que o interesse e o fascínio pela agricultura sintrópica está, em grande medida, na completude da sua proposta, numa abordagem que articula diversos saberes e disciplinas, compondo uma narrativa de rara riqueza.
    PS: Tô doido pra ler esses livros que você citou!
    Grande abraço.

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