Agenda Gotsch

O encontro entre a beleza dos jardins e a abundância das florestas

Ao longo da História os jardins sempre estiveram presentes como testemunha do momento cultural, das riquezas e da religiosidade dos povos. Os jardins da Antiguidade eram instalados no interior ou no entorno de palácios, em áreas planas ou em patamares, e plantavam-se frutas, legumes e flores para alimentação e também para a celebração de rituais. De acordo com historiadores, os jardins egípcios foram implantados há cerca de 4.000 anos e eram orientados de acordo com os pontos cardeais. Eram caracterizados por linhas retas e formas geométricas simétricas e fortemente influenciados pela astrologia e pela crença em deuses. Dentre as plantas cultivadas destacavam-se frutíferas, palmeiras, papiros e flor de lótus. Os jardins mais famosos da Antiguidade foram os Jardins Suspensos da Babilônia (605-652 a.C.), construídos pelo rei Nabucodonosor em oferecimento a sua esposa. Este jardim foi considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo pelo fato de representar uma ousada obra de engenharia.

Jardins de Versailles, Paris. Source: https://bit.ly/2HbJR8O

Para muitas pessoas, a palavra jardim remete a algo parecido às imagens do Palácio de Versalhes na França. Mas os jardins florestais são bem diferentes do cubismo dos jardins clássicos. São florestas construídas pelo ser humano, utilizando a ousada engenharia da agricultura sintrópica que busca unir a beleza de uma floresta natural às plantas comestíveis, em pequena ou larga escala. Se pudéssemos voltar ao mundo antigo e visitar, naquele momento, suas florestas tropicais, subtropicais, boreais... veríamos os jardins egípcios e os jardins da Babilônia com outros olhos: como grãos de feijão crescendo sobre um algodão úmido, brincadeira de crianças do jardim da infância.

A Agricultura Sintrópica e os Jardins Florestais de Ernst Götsch

Há mais de 40 anos, Ernst Götsch vem construindo e ensinando a construir centenas de florestas de alimentos, verdadeiros jardins florestais, verdadeiras maravilhas, e sem precisar fazer guerra, ou como o próprio Ernst diz: "peace farming". Não precisamos fazer guerra contra insetos, fungos ou bactérias, porque eles não são nossos inimigos. Na verdade todos os seres que coevoluíram com as florestas fazem parte dela e surgem para pavimentar o caminho em direção às florestas. Um dos princípios criados por Ernst – e, do meu ponto de vista, o mais difícil de ser interiorizado - diz respeito especialmente e estes seres. Quando visitamos nossos jardins florestais e vemos estes seres trabalhando, antes de qualquer desejo de varrê-los do mapa, de usarmos inseticidas, fungicidas etc, é fundamental perguntarmos o que cada ser está fazendo de bom, pois estes seres sabem o que estão fazendo há milhares de anos e aprofundando essa conexão.

Podemos perguntar também qual o plano das plantas e dos animais para esse lugar. Como exemplo, posso citar minha experiência trabalhando no Cerrado. Venho plantando há três anos em uma área bastante degradada, tomada por cupinzeiros e solos compactados, na qual muitas vezes nem braquiária (Brachiaria decumbens) ou meloso (Melinis minutiflora) crescem. Nestes solos venho plantando muitas árvores, e percebi que os cupins são verdadeiros fiscais de meus cultivos. Quando concentro o parco recurso existente (folhas de gramíneas e poda de árvores e arbustos que conseguem crescer nesses lugares), esses pequenos nichos criados melhoram a fertilidade com a cobertura morta e a proteção do solo, a qual conserva a água, fundamental para solubilizar os nutrientes liberados pela matéria orgânica ali acumulada por nós. Com isso, os cupins deixam minha plantação em paz, porque estou no fluxo de fazer a vida prosperar. Caso eu descuide, por exemplo da cobertura morta, os cupins podem roer as cascas das árvores que plantei. E o mais engraçado, tanto eu como os cupins estamos realizando o mesmo processo de concentrar recursos, pois é visível a maior fertilidade do solo em volta dos cupinzeiros, onde as touceiras de capim ficam maiores e mais verdes. Recentemente fizemos um experimento com trigo, semeado junto com capim andropogon e mombaça.

Trigo com capim (Área experimental CEPEAS)

Na área do plantio de trigo desmanchamos um enorme cupinzeiro e foi justamente nesse ponto que o trigo ficou belíssimo, suas folhas alcançaram quase o dobro do resto do plantio e ficaram verde escuras, enquanto o resto do plantio apresentava uma cor verde clara, no momento em que o trigo estava enchendo os grãos. Quando saímos do paradigma de morte e destruição e passamos a trabalhar para fazer a vida prosperar, todos os seres passam a contribuir para nosso sucesso, pois nosso sucesso é o sucesso deles e vice versa.

Diferença de tamanho em folhas de trigo. O de cima com a influência do cupinzeiro.

Penso em como pode ser simples fazer isso hoje. Na imagem abaixo que retrata um dos trabalhos de Ernst Götsch, dá para ver o vigor e a vitalidade das plantas. O que era antes uma monocultura orgânica de citrus que recebia 57 pulverizações de caldas anualmente, para controle de doenças e insetos, apresenta-se hoje transformada. Pequenas mudanças, grandes transformações. Ernst plantou eucalipto como emergente, capim mombaça como extrato baixo e banana para comporem essa nova paisagem com os citrus. Se paramos pra contemplar uma área sintrópica, sua beleza ultrapassa a monotonia de uma monocultura. Da sinergia dessa combinação surge o belo, surge um jardim florestal e, quando vemos isso, imediatamente brota a vontade de termos um jardim assim em cada manhã.

Eucalipto, banana, cítricos e capim mombaça (Fazenda da Toca, 2015)

Há dois anos atrás plantei o consórcio dessa imagem. Resultado: o mombaça não se estabeleceu, porque exige solos muito mais férteis do que aqueles que tenho em minha região. Eu poderia ter plantado andropogon, um capim cespitoso, de crescimento semelhante ao mombaça, abundante nas margens das rodovias por aqui. Mas eu estava embriagado com aquela imagem dos sonhos. O mesmo aconteceu com a banana, que está morrendo pela falta d’água, baixa fertilidade dos solos e excesso de ventos. A realidade aqui tinha suas particularidades. O solo ainda se apresenta compactado porque resolvi plantar uma área bem maior do que aquela que poderia descompactar manualmente. Das variedades de citrus que plantei somente o limão taiti está indo razoavelmente bem.

Refletindo um pouco mais, comecei a pensar: de onde vem cada planta que compõe essa paisagem? Qual a sua origem? O eucalipto vem da Austrália, a laranja vem da China, o mombaça da África e a banana, uma espécie pantropical. Combinar essas plantas em consórcios não significa apenas plantá-las próximas. Como nosso Mestre diz: 5 % é esforço de plantio e 95% manejo do sistema. Descobri com meu amigo Juã Pereira que, para fazer os citrus prosperarem, eu deveria ter podado as bananas drasticamente desde o início. Ou melhor, não deveria ter plantado bananas em um local tão seco e no início do sistema, com solos ainda tão pobres. Também deveria ter podado mais os eucaliptos para ajudarem os citrus a crescerem melhor. Essa mistura de plantas de biomas diferentes, de continentes diferentes, é o “pulo do gato” para construirmos nossos jardins florestais. Mas é fundamental conhecermos bem as plantas, o lugar onde queremos plantar e, acima de tudo, devemos saber manejar nossas agroflorestas. Aos poucos vamos aprendendo com nossos erros e com os erros e acertos dos outros.

Como podemos errar menos?

Dois anos atrás recebi muitas sementes de mangaba, uma das melhores frutas nativas do Cerrado. Escolhi uma das áreas mais degradadas daqui do CEPEAS (Centro de Pesquisa em Agricultura Sintrópica) e semeei de 8 a 15 sementes juntas, cavando apenas com a ponta do facão, em vários locais, sem qualquer cobertura morta. Apenas semeei no início das chuvas. Recentemente, visitando esses campos, pude ver que o resultado foi maravilhoso. Temos muitos agrupamentos de 2, 4, 5 ou 8 mudas de até 50cm de altura, bem estabelecidas, com folhas verdes, no pico da seca, em solos em que não crescia qualquer outra planta.

Aspecto geral da área onde sementes de mangaba (no centro) foram plantadas há dois anos. Chapada dos Veadeiros, Goiás

Lembrei-me de um dos princípios de Massanobu Fukuoka, “Mu”, nada fazer, ou Lao Tsé, “as coisas estão sendo feitas”. Vendo todo aquele esforço para estabelecer bananas e laranjas... foi mais uma lição aprendida com a prática: um dos caminhos para termos sucesso, seria buscar o máximo de plantas nativas do local ou de outros lugares com solos e clima semelhantes, e consorciá-las com nossos cultivos econômicos. Com isso teremos matéria orgânica das podas suficiente para cobrir o solo, isso demandará menos esforço de manejo, menos insumos externos e assim, com o passar do tempo, melhorando o solo, poderemos ousar e plantar nossos cultivos mais exigentes.

Uma visão aproximada

Hoje, a humanidade tem a seu dispor mão de obra e a tecnologia conhecida como agricultura sintrópica para construir os mais belos jardins florestais de todas as eras, a maravilha das maravilhas. Estamos a um passo, a um pequeno passo do paraíso perdido. Agora entendo o que Ernst me disse há 25 anos atrás: “o senhor precisa ouvir as plantas”. Sigo plantando e sonhado com o futuro. As mangabeiras com frutos, os cajuís floridos, os araçás rebrotando, angiquinhos com sementes, todos plantados em alta densidade, intercalados com piteira, jatobá do campo, anjico vermelho... minhas agroflorestas mais promissoras, sem termofosfato, sem esterco, sem insumos, cobrindo o solo somente com a poda das plantas, acelerando assim a sucessão das espécies e enriquecendo o solo cada vez mais.

 Quanto mais entendermos o verdadeiro papel dos seres que nos rodeiam, mais ajudantes teremos em nossa epopeia de reflorestar a Terra. Uma epopeia capaz de provocar a admiração, a surpresa, a maravilha, a grandiosidade de devolver ao planeta suas florestas, colocar as sementes certas no lugar certo, sem esforço, sem insumos, apenas fazer fluir o que já fluía, "peace farming".

Fernando Rebello é biólogo e engenheiro agrônomo. Aluno de Ernst Gotsch há 25 anos e fundador do CEPEAS - Centro de Pesquisa de Agricultura Sintropica.

Fernando Rebello

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