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AGRICULTURA SINTRÓPICA PARA CRIANÇAS

Os jovens e as crianças de hoje convivem desde cedo com a noção de que o mundo que elas irão herdar será pior do que aquele em que hoje vivemos. Como vamos ensinar educação ambiental para as futuras gerações se a nossa própria geração aparentemente não aprendeu e falhou em agir? Apostamos no potencial pedagógico da Agricultura Sintrópica e o resultado foi esse aqui:

Foram 4 hortas escolares, mais de 50 crianças envolvidas com idades entre 7 e 10 anos e muitos aprendizados ao longo desse primeiro ano de atividades diárias. Queremos agora compartilhar com vocês nossas impressões e reflexões. Com essa troca, esperamos acelerar o longo percurso de aprimoramento que, certamente, temos pela frente.

COMO FAZEMOS NOSSAS HORTAS SINTRÓPICAS NAS ESCOLAS?

Pesquisas sobre implementação de educação ambiental em escolas primárias sugerem que um dos principais motivos de insucesso de tais iniciativas está relacionado com a baixa literacia ecológica dos próprios educadores ambientais.

Atentos a isso, desenvolvemos este projeto nos apoiando na Agricultura Sintrópica como base tanto técnica quanto filosófica para, por meio dela, promover Alfabetização Ecológica. Temos, portanto, à nossa disposição todo o arcabouço teórico e os sintagmas da Agricultura Sintrópica para orientar nossas ações e para nos guiar na tradução da natureza. O objetivo central das Hortas Escolares Sintrópicas é criar um ambiente de aprendizagem informal em que seja possível:

• desenvolver competências práticas (habilidades manuais e técnicas de plantio ecologicamente eficientes);

• favorecer a compreensão das dinâmicas da natureza (conhecimento básicos de biologia e leitura de ecossistemas);

• estimular o aprendizado sobre como coexistir e como cuidar (habilidades emocionais e sociais que envolvam a empatia, a biofiliae a noção de pertencimento).

As atividades são essencialmente práticas e vão desde o preparo do solo, passando pelo plantio, manutenção até chegar à colheita. Nesse caminho, as crianças podem experimentar, em um laboratório vivo, os princípios da ecologia e são convidadas também a exercitar o espírito crítico com relação ao seu papel no ecossistema.

O planejamento das hortas foi feito considerando-se as condições específicas de cada local: características edáficas, espécies pré-existentes, relevo, etc. Nas escolas em que já havia algum tipo de plantio (aromáticas, flores, etc), procurou-se integrar tais espécies à nossa horta, com o envolvimento dos professores e auxiliares que, muitas vezes de maneira informal, já tomavam conta de tais plantas. Para o planejamento das hortas são considerados, portanto, aspectos técnicos e agronômicos, bem como as relações pessoais de respeito e compartilhamento dentro do ambiente escolar. Pois, uma horta na escola só faz sentido se as pessoas que já li estavam se sentirem convidadas a interagir e a se apropriar do espaço.

No exemplo do croqui, a proposta de desenho e de manejo teve como efeito beneficiar o desenvolvimento das oliveiras já existentes. Além disso, as condições iniciais desta área (mono-espécie em terrenos com baixa fertilidade) configuravam um exemplo bastante representativo de muitos quintais e áreas públicas da região. Dessa forma, os resultados ali alcançados poderiam servir de inspiração para ações em outras esferas.

COMO ADAPTAR OS CURRÍCULOS ESCOLARES ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?

Para nós, adultos, já é difícil enfrentar o noticiário ambiental diário. Eventos catastróficos e projeções climáticas tenebrosas provocam até mesmo distúrbios psicológicos. É compreensível. Temos diante de nós um futuro de instabilidades sem paralelos. Agora imagine o que isso pode significar para crianças que vêem seu futuro em risco? O que elas sentem? Elas sentem raiva. Sim, raiva foi um dos sentimentos mais recorrentes identificados em pesquisa sobre o que os mais novos pensam acerca do que está acontecendo com nosso planeta. Também é compreensível. As crianças, em certa medida, estão menos submetidas do que os adultos à letargia da vida moderna que nos encarcera na lógica da sobrevivência-consumo-compensação e isso parece fazê-las ver com mais clareza as incoerências entre falas e atos.

Essas crianças vão exigir de nós muito mais. E é bom que o façam.

Conscientização já não é mais suficiente. Precisamos elaborar uma nova educação que seja capaz de instrumentalizar a ação e, sobretudo, que consiga estimular essa nova geração a forjar outros futuros possíveis. Nós devemos isso a eles.

A agricultura é por excelência o espaço social no qual são materializadas as relações fundamentais entre ser humano e a natureza. Sob a ótica da Agricultura Sintrópica, entendemos que o atendimento das necessidades humanas e a manutenção dos sistemas naturais de cujos serviços somos dependentes não precisam ser polaridades conflitantes. Isso está por trás de todas as nossas intervenções e essa é a saída que apresentamos às crianças por meio de atividades lúdicas em nossas hortas.

RESPONSABILIDADE E VÍNCULO - Todas as principais intervenções foram realizadas com a participação das crianças para que o vínculo fosse criado desde o início. Com cada planta também era semeado o senso de responsabilidade, assim ambos puderam crescer juntos. (Escola Mina de São Domingos - Dez/2018).

SUCESSÃO E COOPERAÇÃO - O consórcio de hortaliças é uma das primeiras lições visíveis da lógica de sucessão de espécies que fundamenta a Agricultura Sintrópica e que oferece os mecanismos práticos para a recuperação pelo uso. No 3º mês do projeto já era possível observar o desenvolvimento de alfaces, brócolis, couves, cebolas e alhos. Todas essas espécies, além das árvores e das adubadeiras, crescem juntas em um mesmo ninho. Assim as crianças percebem, na prática, que não há competição quando são sincronizadas espécies com ciclos de vida diferentes e arquiteturas que não se sobrepõem. (Escola Mina de São Domingos – Fev/2019).

AÇÃO E REFLEXÃO - O princípio da cooperação e a valorização das diferenças são transpostos para as relações humanas nas rodas de reflexão que coroavam o fechamento de cada encontro. (Escola Mina de São Domingos - Mar/2019).

PRIMEIRAS COLHEITAS - O vínculo e a responsabilização com o plantio que cada criança desenvolveu têm como recompensa a colheita. Na foto vê-se a comemoração do dia em que foi feita a primeira colheita de alfaces. O aprendizado subsequente esteve relacionado com a independência da rega durante todo o inverno, a resiliência da horta que venceu 2 episódios de geadas, o tempo de cada planta, bem como a partilha, a celebração e a satisfação de levar para casa um alimento que eles mesmos cultivaram. (Escola Mina de São Domingos –Fev/2019).

COMPROMETIMENTO - Observou-se que o envolvimento das crianças com a horta foi proporcional ao crescimento das plantas. Enquanto que, inicialmente, era preciso um grande esforço para fazer com que todos se engajassem com as atividades, ao final só era preciso uma orientação geral, pois as crianças já sabiam e queriam interagir com a horta. (Escola Mina de São Domingos –Maio/2019).

AUTONOMIA - Por iniciativa própria, as crianças faziam as podas necessárias e se preocupavam em alimentar os ninhos com a matéria orgânica resultante. Muitas das práticas de manutenção do sistema foram gradualmente interiorizadas e a autonomia das crianças foi um dos indicadores sutis de maior impacto deste projeto. (Escola São Miguel do Pinheiro –Maio/2019).

COLHEITA DIVERSA - No quesito hábitos alimentares, procurou-se um equilíbrio entre a tradição e a inovação. Ao mesmo tempo em que eram apresentadas alternativas, dando-se a conhecer as plantas alimentícias não convencionais, eram também cultivadas aquelas espécies que já fazem parte do cardápio real e cotidiano daquela comunidade. No entanto, estas mesmas espécies foram incluídas em um contexto completamente diferente daquele em que elas convencionalmente são cultivadas. A batatas, por exemplo, têm presença marcante na culinária local, mas são um desafio para a produção orgânica em pequenos pomares pois é vista como uma cultura de baixo retorno financeiro e que ocupa grandes áreas. Nas Hortas Escolares Sintrópicas apresentamos uma alternativapara seu cultivo aproveitando uma zona geralmente não utilizada nos pomares: o entorno das árvores já existentes. (Escola Mina de São Domingos –Maio/2019).

IDENTIDADE - A colheita das batatas teve um efeito positivo muito grande em toda a comunidade educativa. (Escola Santana de Cambas –Maio/2019).

CELEBRAÇÃO - Fomos surpreendidos com um almoço feito com a colheita da nossa horta e este, sem dúvida, foi um dos pontos altos deste projeto e uma grande recompensa que tivemos. Isso porque essa é uma das representações máximas de que o orgulho e a satisfação de colher a própria comida haviam sido incorporados por todos da escola. Só depois de selado esse respeito mútuo, em um relacionamento construído com honestidade, é que nos parece fazer sentido iniciar uma conversa sobre outros possíveis hábitos alimentares. (Escola São Miguel do Pinheiro - maio / 2019).

ENGAJAMENTO - O potencial pedagógico deste projeto extrapola os limites das hortas. O ato de cultivar respeitando a natureza tem desdobramentos no amadurecimento das reflexões sobre nossa responsabilidade ecológica enquanto sociedade global. Reflexo disso foi o envolvimento dos alunos na “Greve pelo Clima”, inspirados pela adolescente ativista ambiental Greta Thunberg (Todas as escolas – Mar/2019).

CIÊNCIA VIVA - Experimentos simples como o ilustrado nesta foto colocaram no centro do debate a erosão dos solos. Em um território que enfrenta os riscos da desertificação, as crianças puderam constatar a diferença da dinâmica da água sobre solos expostos e sobre aqueles cobertos por vegetação. Depois disso, todos foram convidados a refletir sobre o impacto da chuva nos terrenos que tínhamos ao alcance de nossas vistas. (Escola Mina de São Domingos - Fev/2019).

INTERDISCIPLINARIDADE - Com o apoio das professoras titulares, aquilo que foi observado na horta ganhou as salas de aula para subsidiar atividades em diferentes competências: redação (relatório sobre os plantios); matemática (medições da altura das plantas); expressões artísticas (desenhos da horta); além, é claro, dos estudos do meio (diferentes tipos de folhas; estações do ano; etc). (Escola Santana de Cambas - Fev/2019).

DESAFIO DA DEGUSTAÇÃO - Com os olhos fechados, as crianças tiveram que diferenciar brócolis e couve. O clima de brincadeira fez com que muitas crianças experimentassem esses vegetais pela primeira vez.

LAÇOS DE AFETO - A decoração da horta (pintura das pedras, espantalho, etc) foi toda feita por iniciativa dos alunos, da professora titular e das auxiliares da escola, fora do horário regular de atividades. Pequenos atos de carinho que comprovam que aquele espaço ganhou um novo significado para todos. (Escola Santana de Cambas – Maio/2019)

APRESENTAÇÃO EM PREMIAÇÃO - Uma das consequências do envolvimento da professora e das auxiliares da Escola da Santana de Cambas foi a premiação daquela Horta Escolar Sintrópica em concurso de sustentabilidade em nível nacional. (Matosinhos - Maio/2019).

PEQUENA FAMÍLIA - Mesmo nas escolas com poucos alunos, o envolvimento e as colheitas mostraram resultados. (Escola Algodor – Jun/2019).

Há anos trabalhamos com a comunicação dos conceitos da Agricultura Sintrópica para um público muito amplo. Mas nunca havíamos sido desafiados a traduzir esses mesmos conceitos para crianças. O que essa experiência tem nos sugerido é que aproveitar o potencial pedagógico da Agricultura Sintrópica parece ser um caminho extremamente promissor. Não como uma solução normativa, mas sim como uma ferramenta propícia para estimular a autonomia, promover a socialização e ainda nutrir essa nova geração de uma força criativa capaz de inventar, descobrir e conquistar futuros ainda inimagináveis.

Este projeto foi resultado de uma parceria entre: Life in Syntropy, Câmara Municipal de Mértola, Agrupamento Escolas de Mértola, Juntas de Freguesia do Concelho de Mértola, Associação Terra Sintrópica, Somincor, Escola Profissional Alsud.

Dayana Andrade

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