Agenda Gotsch

Os custos e objetivos velados da tecnologia

Desafios atuais

Atualmente, a produção de alimentos, madeira e fibras alterou a capacidade de suporte dos seres humanos no planeta, ao mesmo tempo em que promoveu um grande impacto no resto da diversidade biológica. A agricultura é a maior causa do desmatamento nos trópicos e já ocupou 70% das pradarias do mundo, 50% das savanas e 45% das florestas temperadas. Por isso, é uma das maiores responsáveis por poluição e alterações climáticas. Além de resolver todas essas questões atuais, urgentes e fundamentais, a agricultura precisa também dar conta de produzir duas vezes mais até 2050 devido ao aumento populacional.

O panorama descrito acima evidencia que, embora o modelo de produção atual acumule vitórias na produtividade, as implicações ambientais, climáticas e sociais que estão associadas ao seu paradigma impõem, por ora, barreiras instransponíveis à sua própria continuidade. Quando somados, esses fatores deveriam criar um cenário propício à inovação, afinal, a mesma tecnologia que parece nos ter condenado a um modo de vida insustentável, bem ou mal, foi também o que nos trouxe ate aqui e, agora, nos dá uma janela de oportunidade para mudar. Precisamos, mais do que nunca, saber quais respostas queremos que a tecnologia nos ofereça daqui para frente, e quais desafios são merecedores de sua atenção.

Se mantemos nosso otimismo e continuamos a agendar férias com a família sem pensar nesses problemas gravíssimos é porque temos fé de que a tecnologia, tal qual um deus ex machina, surgirá com soluções inimagináveis. Pode até ser verdade. Mas corremos o risco de isso ser apenas fruto de um instinto de autopreservação reconfortante acionado em tempos de crise. Uma fuga pela fé. Mas afinal, a tecnologia pode nos salvar? Nesse texto, refletimos sobre os valores abstratos e os usos sociais do conceito de tecnologia, questionando sua suposta neutralidade e presumida autoridade na agricultura.

Por trás do conceito

A agricultura representa, por excelência, o ambiente de interface do trinômio homem-natureza-tecnologia. O que historicamente tem sido entendido como inovação na agricultura frequentemente esteve associado à criação, ao uso e à aplicação de tecnologias, sejam elas no âmbito da produção ou da organização agrícola.

Para o pesquisador Alf Hornborg, a tecnologia seria o fetichismo central do capitalismo e a noção de progresso tecnológico um artigo de fé do neoliberalismo, mas também do marxismo e do ambientalismo. Sua premissa é a de que toda tecnologia depende de uma transferência assimétrica de trabalho e terras, ao que chama de apropriação espaço-tempo. O exemplo mais emblemático vem da própria Revolução Industrial, quando as elites europeias tiraram proveito de terras (extensas áreas com nova fertilidade), trabalho (escravo e/ou servidão) e também da exploração das discrepâncias na própria produção (relações globais de preço) para sustentar sua revolução tecnológica. Evidenciar essa relação ajudaria a desconstruir a falaciosa impressão de neutralidade associada à tecnologia. Para placas solares gerarem energia limpa, são necessários: 1) grandes espaços para instalação em países como Argélia; 2) mineração do silício para matéria prima em países como Brasil e China; 3) mão de obra proveniente dos países em que ela estiver mais barata; para então 4) a energia ser consumida nos países com maior poder de compra. Essa perniciosa situação em que o capital travestido de tecnologia se torna politicamente inocente e moralmente isento é denunciada em diversas oportunidades pelo pesquisador. Nesse sentido, a tecnologia seria fundamentalmente uma forma de organizar a sociedade humana global.

According to Heidegger, technology is neither good nor evil in itself. Neither it is neutral.

Muito antes de Hornborg – e partindo de uma perspectiva distinta - o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), no ensaio intitulado “A Questão da Técnica”, de 1949, já apontava haver uma diferença fundamental entre aquilo que concede possíveis sentidos à tecnologia e aquilo que é sua essência. Sob essa ótica, estaríamos apenas arranhando a superfície dos instrumentos da tecnologia e de suas finalidades, sem questionar ou repensar sua ontologia. Para o filósofo alemão, na busca pela essência da tecnologia desvela-se que ela não tem nada de técnica e tem muito da expressão de um modo de ser em determinada época. Para Heidegger, a tecnologia não é nem um bem, nem um mal em si mesma. Tampouco é neutra. Ela seria um desvelar desafiador (Herausfordern) que impõe à natureza a não razoável demanda de fornecer energia que pode ser extraída e armazenada. O grande perigo reside no que, em alemão, o autor chamou de Bestand, o fundo de reserva exposto à exploração - aquilo de que a tecnologia se serve. Não apenas como um estoque ou um armazém, mas como uma fonte completamente à disposição imediata, tal como – em analogia utilizada pelo próprio filósofo - um avião taxiando à espera da ordem de decolagem, com todas as suas operações em prontidão. O custo de não reconhecer isso seria o de restringir nosso olhar. Seria como reduzir um rio a uma barragem à serviço da usina hidrelétrica, ou a terra a um depósito de minério a ser extraído. Esse desvelar desafiador presente também na agricultura enquanto “indústria de comida mecanizada”, não aconteceria, no entanto, na terra cultivada pelo camponês que incorpora no trabalhar a terra também o cuidar e o manter. Em última instância, o que ocorre é a subordinação do homem e de suas atividades ao mesmo desvelar desafiador, quer ele se dê conta disso ou não.

"Como você gostaria de ficar conhecido, como o descobridor do fogo ou o primeiro homem a poluir a atmosfera?" Fonte: https://sites.google.com/site/metmodule4/module-4-readings/heidegger

De modo geral, quando se fala em tecnologia na agricultura, pouco ou nada se reflete as implicações pensadas e interpretadas por tais autores. Geralmente, a tecnologia é simplesmente entendida como o produto de novas descobertas e invenções. Essa epistemologia tecnológica tem como ícone fundador a máquina a vapor e sua associada ideia de progresso. Derivam dessa mesma narrativa noções mais corriqueiras de eficiência e produtividade (mesmo que atualmente com a nova roupagem da revolução da informação). É nessa tecnologia que são depositadas grande parte das esperanças de solução para os atuais problemas de sustentabilidade. Para suprir a necessidade de fontes exógenas de energia fia-se na promessa das energias renováveis como a energia solar ou dos ventos. Para superar limitações de solos férteis investe-se em pesquisa sobre hidroponia ou indoor farms. Para resolver (pontualmente e sucessivamente) a resistência e a produtividade de determinadas espécies cultivadas, a aposta é na modificação e na edição genética de organismos. Poderíamos nos deter aqui em analisar as contradições internas de cada uma dessas propostas. Mas, de maneira breve, podemos ao menos apontar que as tais “agriculturas de ambiente controlado”, grupo que congrega muitas dessas propostas, encontra inúmeras críticas com relação: ao custo de implantação e manutenção, aos resíduos poluentes gerados (mesmo em sistemas circulares) e, acima de tudo, no que se refere ao impasse com relação à alta demanda energética, para o que as soluções de “energia limpa” levariam à curiosa (senão embaraçosa) substituição do Sol por painéis de energia solar (Jonathan Foley).

Are "clean energy" solutions really clean? (Pixabay)

O dilema da tecnologia

Mas, a reflexão que a Agricultura Sintrópica de Ernst Götsch sugere é a de que todos esses modos de enfrentamento do problema têm em comum o fato de não questionarem os outros dois eixos do citado trinômio que representa a agricultura: a relação do homem com a natureza. Perdemos nossa conexão há pouco tempo. Nossas sociedades agrícolas são recentes comparadas à nossa existência como Homo sapiens (mais de 200.000 anos). A agricultura representa nosso domínio sobre a natureza e lentamente substituiu nossa tendência natural a cuidar de outras formas de vida por uma atitude antropocêntrica e hostil. Nos últimos 10.000 anos, nos tornamos os donos do mundo, fizemos nossas ferramentas e remodelamos o planeta de acordo com a nossa vontade, aumentando a cada passo a distância entre nós e as dinâmicas naturais. A essa altura dos acontecimentos, já deveríamos reconhecer que não podemos vencer essa cruzada contra a natureza. Como disse o crítico/comediante americano George Carlin, não há nada mais pretensioso que o slogan "salve o planeta". O planeta está bem, já passou por traumas muito piores do que nós em seus 4,5 bilhões de anos. É um organismo que se autorregula, e irá nos expulsar com a simplicidade de quem sacode a poeira do corpo. Nós é que devíamos compreender e nos adaptar às suas regras, e não o contrário. Da mesma forma, nossa tecnologia deveria estar focada em entender e favorecer processos naturais, não o contrário.

Revive-se, como em um pesadelo cíclico, um mesmo padrão de comportamento: a ação é a de se extrair e a reação é a de se combater as supostas limitações diagnosticadas de forma analítica, sem nunca questionar se essa é a única ou melhor maneira de garantir nossa sobrevivência, e do mundo com o qual interagimos. Celebramos e consideramos mais eficientes exatamente aquelas tecnologias que melhor e por mais tempo garantam a manutenção de nossos atuais modos de vida, mesmo que esses sejam, fundamentalmente, as causas de nossos problemas. Precisamos desse questionamento para saber onde mirar nosso esforço tecnológico. Isso define não apenas frentes de investimentos concretos, mas também os valores éticos e morais que abastecerão as futuras mentes inovadoras.

Referências

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FOLEY, J. A., Ramankutty, N., Brauman, K. A., Cassidy, E. S., Gerber, J. S., Johnston, M., … Zaks, D. P. M. (2011). Solutions for a cultivated planet. Nature, 478(7369), 337–342. https://doi.org/10.1038/nature10452

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ZAMORA, D., & Udawatta, R. P. (2016, October 1). Agroforestry as a catalyst for on-farm conservation and diversification. Agroforestry Systems. Springer Netherlands. https://doi.org/10.1007/s10457-016-0013-1

Dayana Andrade

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