Agenda Gotsch

Recuperação pelo uso

Um pasto degradado que será transformado em uma floresta produtiva. Em novembro de 2016 Ernst Götsch escolheu esta área na Fazenda São Sebastião para iniciar um plantio com foco inicial na banana e na mandioca. A seguir descrevemos cada um dos passos da implantação desse sistema, com os detalhes das explicações fornecidas pelo próprio Ernst Götsch durante a execução do projeto. O plano para o futuro da área? Segundo Ernst, é o estabelecimento de uma "Mata Amatlântica" com cambucá, açaí, samaúma e castanha do Brasil. Um exemplo de recuperação pelo uso!

Histórico da área escolhida

O histórico do local guarda registros de uso para o plantio de mandioca que, inviabilizado pela baixa produtividade, deu lugar à pastagem não manejada. A área ficou nessas condições de uso, sem manutenção nem queima nos últimos 7 anos.

Estado inicial da área

A lógica do design

O sistema implantado é constituído por um consórcio complexo, o que significa dizer que entrarão mais de 30 espécies diferentes que se sucederão no tempo e no espaço. Um dos aspectos importantes para a definição dessa composição diz respeito à escolha das espécies segundo o seu ciclo de vida. Na agricultura sintrópica, os arranjos são feitos de modo que o espaço do campo seja bem aproveitado ao longo de todo o tempo em que o sistema vai se transformando. Ou seja, espécies com ciclo de vida diferentes podem, sem problema algum, ocupar o mesmo espaço na hora do plantio pois elas  crescerão em tempos diferentes, não se sobrepondo portanto.

No caso desta área, por exemplo, a banana e a mandioca são as representantes do ciclo de vida curto para médio. Mas na mesma linha também foram plantados açaí, rambutam, cacau e cupuaçu, as quais fazem parte do grupo de ciclo de vida médio/longo. Por volta do 25º ano o cacau e o açaí começarão a ser raleados do sistema para dar lugar às espécies de ciclo longo, neste caso representadas pelo mangustão, cambucá, samaúma e castanha do Brasil.

Todas essas espécies foram plantadas no que chamamos de linha A. Na entrelinha, ou área B, foi plantado o capim mombaça (um cultivar de colonião Panicum) Panicum maximum. No início, esta é uma das principais estratégias para superar a condição do local de pasto degradado e iniciar as transformações que farão com que as condições desta área melhorem ao ponto de serem suficientes para dar suporte à futura floresta produtiva.

Ilustração: Ursula Arztmann

Essa é uma das grandes inovações desse método pois, além de não utilizar nenhum herbicida, o capim é cultivado intencionalmente. Ele desempenhará o papel fundamental de fornecedor de biomassa desde o início. O plano de manejo para esse capim é o de cortá-lo entre 5 a 6 vezes ao ano, sempre aproveitando todo o material resultante da roçagem para alimentar a linha A, das árvores.

Preparo da área

Nós aramos, gradeamos e passamos enxada rotativa com um Kubota 23 cv

O terreno foi arado com a intenção de quebrar a camada de capim que havia ali (Brachiaria humidicola) para chegar até o horizonte de terra mais compactado (teríamos usado um subsolador se houvesse). Depois do arado foi utilizada uma grade niveladora e o último implemento utilizado foi a enxada rotativa com a finalidade de afofar a terra nos canteiros destinados ao plantio das frutíferas.

Não há no mercado de implementos agrícolas nenhum maquinário que tenha sido desenvolvido exatamente para as finalidades que são buscadas nesse tipo de manejo. Nada contra o Kubota (vale dizer, nos surpreendeu positivamente), mas sim contra o paradigma tecnológico em que estamos inseridos. Todos esses passos poderiam ter um resultado mais preciso se houvesse algumas adaptações tanto no trator quanto em seus implementos. Um exemplo simples dessa limitação: nesse tipo de manejo a rebrota do capim não só é desejada como essencial para o sucesso do sistema. No entanto, atualmente nenhum maquinário agrícola de roçagem, disponível facilmente no mercado, consegue fazer um corte com a qualidade adequada para proporcionar o novo crescimento em menor tempo, sendo ao mesmo tempo uma máquina leve, que não compacte o solo e que seja capaz de realizar o corte e a organização do material em uma mesma passagem. Esse é apenas um exemplo, mas ele ilustra bem as consequências práticas das mudanças de paradigma que a agricultura sintrópica apresenta (mais sobre mecanização aqui). Para a implantação manual não há esse tipo de limitação pois todos esses passos podem ser realizados com ferramentas simples como enxada, enxadão, garfos, etc.

Formação dos berços

Removemos o solo da superfície que ainda possuía fragmentos de rizoma do capim e separamos essa porção na lateral. O ideal seria ter maquinários capazes de separar completamente o capim e seu rizoma, para que esse material não fosse incorporado no solo. Removida essa camada, chega-se a uma profundidade de cerca de 50cm (cinquenta centímetros) na região de transição entre os horizontes B e C do solo.

Ernst Götshc preparando os berços

Não foi feita análise laboratorial da composição daquele solo mas, por seu aspecto visual, textura, densidade e histórico geológico conhecido da região, é possível identificar características de solo composto por argila e areia, em uma proporção favorável para a capacidade de retenção de água e a penetração das raízes.

Não fazer ou não ter acesso a análises laboratoriais de solo e outros edafoclimátias, é condição comum no cotidiano de muitos agricultores e isso não pode ser um fator que limite a prática.

O passo seguinte é o da mistura do adubo preparado na proporção de cinco partes por volume de um composto orgânico rico em nitrogênio (usamos torta de mamona) e uma parte por volume de termofosfato (que poderia ser substituído por algum pó de rocha rico em fosfato). O pó de rocha também foi utilizado para o estabelecimento das faixas de capim. Como ele não é termicamente tratado, sua ação é mais lenta e depende da presença de atividade biológica no solo que, neste caso, será garantida pela não utilização de nenhum biocida.

Com o adubo homogeneamente misturado com a terra, recoloca-se a parte que fica mais ao fundo e pressiona-se para retirada das bolsas de ar. Coloca-se, então a muda e o restante da terra. Ainda por cima recomenda-se colocar um pouco da terra sem adubo, como um pequeno truque para que alguma erva presente no banco de sementes daquele material não cresça aproveitando-se do adubo. Para finalizar o plantio, cobre-se a área plantada com a matéria orgânica resultante da roçagem do campo, formando uma estrutura côncava em volta da bananeira.

Matéria orgânica forma o "ninho": proteção e nutrição para as plantas

Colocar a matéria orgânica nessa disposição, que ficou conhecida como "ninho" ou "berço", protege a muda recém plantada do impacto direto do sol  no solo a sua volta, diminuindo a perda de água por evaporação, evita o crescimento de ervas espontâneas e ainda, em caso de chuva, evita a lixiviação e promove o escoamento da água para o centro. O plantio feito dessa forma garante a sobrevivência da bananeira sem irrigação e sem chuvas por até um mês. A matéria orgânica que alimentará continuamente o ninho será produzida pelo próprio sistema. 

Entre as bananeiras - na mesma linha A - plantou-se mandioca. Quatro manivas de mandioca no centro, formando um "V" duplo. A variedade usada amadurece em 7 meses, tempo ideal para acompanhar o crescimento das bananeiras e ser colhida antes que se sobreponham. Para o plantio da mandioca não foi utilizado nenhum adubo além do material da roçagem já presente no local.

Como as mandiocas são plantadas em "V" duplo, seus tubérculos tendem a crescer na direção das bananeiras ficando livre, portanto, a região entre elas. Exatamente nesse o local será colocada a coleção de sementes de árvores que escolhemos: cajá mirim, eritrina, graviola, jatobá, caimito, etc - são plantadas cerca de 10 sementes variadas, escolhidas aleatoriamente, garantindo apenas que haja sempre uma eritrina pois ela desempenha um papel importante no fornecimento de matéria orgânica para o sistema, além de estabelecer uma boa relação simbiótica com o cacau.

Ao lado da bananeira é plantado cacau, açaí, castanha do Pará, ingá de metro, rambutão a cada segunda fila, mangustão a cada quarta fila, alternado com cambucá. Algumas dessas espécies estão no espaçamento definitivo, outras passarão por raleamento ao longo do crescimento do sistema, ou podas de estratificação para mantê-las por mais tempo. Junto da bananeira ainda são plantadas 3 (três) sementes de Sesbania grandiflora pois elas mantêm um boa relação simbiótica com a bananeira. Junto da mistura das sementes de árvores ainda é acrescentado feijão fradinho, pois ele é o primeiro que cresce e funciona como um viveiro natural para as primeiras plântulas das árvores.

Finalizados todos esses plantios, cobre-se o solo com o material restante da roçagem e planta-se por último o feijão de porco que também servirá de fornecedor de biomassa para alimentar o sistema. A poda do feijão de porco também produz o efeito benéfico da liberação de fito-hormônios que estimularão o crescimento de todas as espécies vizinhas. A outra vantagem do plantio do feijão de porco reside no fato de que ele, logo no início, ocupa o espaço em que (ainda) não haverá capim mombaça, evitando dessa forma o crescimento de outras ervas espontâneas não interessantes.

Dayana Andrade

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